Poderosas contas - sons celestiais

 

Algumas tradições religiosas investem tempos em orações repetitivas que são como “poderosos sons” que produzem uma energia espiritual que aquieta a alma. É uma forma simples de se aproximar do mistério divino que pode ser ouvido por todos aqueles que desaceleram, diminuem os ruídos para captar esse som celestial.

Existe por exemplo, uma antiga tradição chamada de Japamala  que é um cordão com 108 contas, utilizado para ajudar na contagem de orações ou entoações de mantras, sendo que podem ser encontrados em outros dois tamanhos, os menores, de 27 contas e os de 54 contas.

A história conta que essa tradição vem da Índia a mais ou menos 3000 anos. A expressão Japamala vem da junção de duas palavras: Japa que significa "murmurar, repetir" e Mala "cordão ou conta". Logo, podemos dizer que esse objeto sagrado na sua etimologia significa "repetir em um colar de contas".  

No hinduísmo, o japamala é usado principalmente na Sadhana ou Abhyasa, termo sânscrito que significa prática espiritual, que pode ser resumido de forma bem simples  como a prática diária do yoga usada pelo praticante a alcançar o Moksha. Muitos hindus usam para recitar seus mantras.

Por que são 108 contas?

O número "108" é considerado um número sagrado: o alfabeto sânscrito possui 54 letra-fonemas masculinos e 54 letras-fonemas femininos, resultando em 108 fonemas. Devido a influência desse número, podemos encontrar na Índia templos com 108 degraus, rituais onde se usam 108 yantras (diagramas para meditação), ou cerimônias onde há 108 altares para fazer oferendas ao fogo sagrado.

No catolicismo, encontramos o Rosário que etimologicamente significa “coroa de rosas”. Isso pode estar associado a um antigo costume de se oferecer coroas de rosas à sua rainha o que já demonstrava um reconhecimento de Maria como rainha da terra e do céu.

Os monges já tinham o costume de rezar o Saltério, tradição herdada do judaísmo. Aos monges que não conseguiam acompanhar essa oração assim como os fiéis, era dito que repetissem o Pai Nosso. A saudação do anjo, a Ave Maria, era rezada em alguns momentos litúrgicos, como uma antífona, e só em 1480 foi acrescida o nome Jesus, ao final dessa primeira parte da oração.

Um sonho de São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Dominicanos foi importante para o crescimento dessa oração. Segundo uma antiga tradição, no ano de 1208, o santo foi a um bosque suplicar a Nossa Senhora para que mostrasse uma forma de vencer a batalha contra os hereges. Depois do terceiro dia em oração, Nossa Senhora apareceu-lhe acompanhada de três anjos e disse:

- Querido Domingos, você sabe qual é a arma que a Santíssima Trindade quer usar para mudar o mundo? A senhora sabe, respondeu São Domingos. Então Nossa Senhora lhe disse:

- Quero que saiba que neste tipo de guerra a arma sempre foi o Saltério Angélico (palavras do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora na Anunciação), que é a pedra fundamental do Novo Testamento. Portanto, se você quer converter estas almas endurecidas e ganhá-las para Deus, difunda o meu saltério.

Conta-se que Nossa Senhora, então, mostrou o terço para São Domingos, com as 50 Ave-Marias, que passou a ser conhecido como Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria. A partir daí São Domingos começou a espalhar esta devoção, encontrando eco nos fiéis católicos que não sabiam ler e queriam de alguma maneira imitar os monges que recitavam os 150 Salmos da Bíblia.

 No começo se rezava a Ave Maria sem a contemplação dos mistérios da vida de Cristo. Entre 1410 e 1439, o monge cartuxo Domingo de Prusia, de Colônia, Alemanha, passou a rezar um saltério com 50 Ave-Marias, cada uma acompanhada de um trecho do Evangelho, como uma jaculatória. Assim, os salmos eram substituídos pelas Ave-Marias e as antífonas, pelos trechos dos Evangelhos. Os chamados saltérios marianos se tornaram populares, se multiplicando. O dominicano Alano de la Roche (1428-1475) empenhou-se muito na promoção do saltério mariano, que começou a se chamar “Rosário da Bem-Aventurada Virgem Maria”. Outro dominicano, Alberto de Castello, em 1521, simplificou o Rosário, escolhendo 15 passagens evangélicas para meditação a cada dez Ave-Marias.

Foi o Papa São Pio V, Papa de 1566 a 1572, que estabeleceu o atual desenho do Rosário. O Papa São João Paulo II, em 2004, fez uma reformulação nessa oração. Os católicos agora rezam contemplando os mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos.

Por que são 150 contas?

As 150 contas estão relacionadas ao livro dos saltérios (são 150 salmos). As 10 Ave Marias, com os 10 mandamentos. A divisão em 5 partes, lembra a Torá, como também as Cinco Chagas de Cristo.

Os muçulmanos por sua vez, usam Masbaha ou Subha para realizar uma oração vocal de invocação de nomes associados a Alá desde o século VII d. C.

Por que são 99 contas?

Segundo a teologia muçulmana, os nomes de Deus são 4 mil: mil são conhecidos apenas por Deus; mil por Deus e pelos anjos; mil, por Deus, pelos anjos e pelos profetas; mil, por Deus, pelos anjos, pelos profetas e pelos fiéis. Desses últimos, 300 são citados na Torá; 300, nos salmos; 300, nos evangelhos e 100, no Alcorão: desses, 99 são conhecidos pelos fiéis comuns; 1 está escondido, secreto e acessível somente aos místicos mais iluminados.

Segundo os ensinamentos do profeta Maomé, “existem 99 nomes que pertencem somente a Deus: aquele que os aprende, que os compreende e os enumera entra no paraíso e alcança a salvação eterna”. De fato, entender “a essência” desses atributos é o primeiro passo para enriquecer-se espiritualmente. Eis porque, no uso devocional, é costume do muçulmano, que se recolhe em oração, fazer correr entre os dedos as 99 contas desse objeto sagrado.

 Esses exemplos demonstram uma necessidade de cuidado. Esse tempo dedicado a essas  formas de oração criam um cuidado com a casa interior que precisa de atenção. Existem condições básicas para que essas orações alcancem seu proposito como por exemplo uma boa postura, respiração profunda e concentração. Cada conta dita um ritmo sagrado aos ritmos da nossa existência.

 

 

 

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